No livro Em Busca de Sentido, Viktor Frankl narra o momento em que ele e outros prisioneiros foram libertados do campo de concentração. Curiosamente, não houve uma explosão de alegria. Eles mesmos se surpreenderam com a ausência de contentamento. Depois de tantos anos de espera e sofrimento, era como se precisassem aprender novamente a se alegrar.
Frankl comenta: “O corpo não tem tantas inibições como a alma.”
Essa frase revela algo muito humano: falar sobre dores físicas, fraquezas íntimas ou situações constrangedoras do corpo muitas vezes é mais fácil do que expor o que está na alma. O corpo se revela sem tantas barreiras, enquanto a alma parece guardar silêncios mais profundos.
No livro A Presença Ignorada de Deus, o mesmo autor observa que, em um processo terapêutico, as pessoas costumam falar de aspectos íntimos e pessoais da vida, mas raramente falam de Deus. Ele chega a dizer: “Enquanto isso, continuamos a falar de coisas superficiais.”
Falar de Deus, ou até mesmo da própria fé, pode parecer mais inibidor do que falar das próprias dores do corpo. É como se a alma se retraísse diante daquilo que é essencial.
Essa constatação nos convida a refletir:
- Por que nos tornamos mais reservados quando o assunto é o sentido último da vida?
- Por que, em tantas conversas, conseguimos expor fragilidades físicas e emocionais, mas hesitamos em revelar nossa sede espiritual?
- Não seria justamente essa dimensão — a abertura ao transcendente — o que mais precisa vir à tona para que a vida se torne plena?
Aprender a se alegrar novamente, como fizeram os libertados do campo, é também aprender a deixar a alma se expressar. É dar voz ao que nos habita no mais profundo: o desejo de sentido, a busca por Deus, a esperança que sustenta a existência.
Talvez seja esse o maior desafio da liberdade: não apenas viver sem correntes, mas permitir que a alma se liberte de suas próprias inibições.