Foi a primeira vez que dei essa palestra. Uma escola pequena, eu ao lado da Sol Zanini, falando para uma sala de crianças entre 10 e 13 anos sobre feminilidade, masculinidade e amadurecimento. Não vou entrar no conteúdo. O que ficou comigo não foi o que dissemos — foi o que aconteceu na sala enquanto falávamos.
No fim, perguntei o que mais tinha marcado do que a gente falou. As respostas vieram em frases específicas — coisas que claramente tinham tocado alguém ali, do jeito que a gente queria tocar. Foi nesse momento que senti que o objetivo tinha sido cumprido. Depois, vieram perguntas anônimas, muitas delas. Imagino que sejam perguntas que não têm com quem conversar em casa, ou que nunca receberam atenção séria o suficiente para serem esclarecidas, ou que dão vergonha demais de perguntar em voz alta. Cada frase lida parecia confirmar para alguém ali que a própria confusão não era um defeito escondido, era só parte de estar vivo naquela idade.
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Isso me fez pensar numa coisa que já sabia, mas não tinha sentido com esse peso: quase ninguém para para falar sobre isso com essas crianças. Elas recebem pressão de todo lado — dos colegas, das redes, de um mundo adulto que já decidiu o que elas deveriam ser antes mesmo de perguntar o que elas sentem — mas raramente alguém senta na frente delas e diz: o que você está sentindo agora tem nome, e você não precisa decidir sozinho o que fazer com isso.
Amadurecer não começa aos vinte anos, quando a vida finalmente cobra a conta. Começa muito antes, nessa fase em que o corpo já muda e a cabeça ainda não tem onde guardar o que sente. E é exatamente nessa fase que menos gente para para conversar — porque parece cedo demais, ou porque os adultos também não sabem nomear o que passaram na própria adolescência.
Fazer essa palestra pela primeira vez me confirmou algo sobre o meu próprio trabalho: não é sobre ensinar uma doutrina de fora para dentro. É sobre dar nome a algo que a pessoa já vive, mas nunca ouviu ninguém nomear em voz alta. Fiz isso com adultos durante anos. Fazer com crianças de 10 a 13 anos foi perceber que a necessidade começa muito antes do que eu imaginava — e que a maioria delas vai crescer sem que ninguém pare para isso.
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O Mapa do Amadurecimento nasceu para adultos que chegam confusos sobre quem são. Mas aquela sala me mostrou que a confusão não nasce na vida adulta — ela só fica mais cara de resolver depois de anos sem ninguém ter parado para nomeá-la. Reconhecer isso não muda o método. Muda a urgência.
Não sei o que cada criança daquela sala vai fazer com o papel que escreveu. Mas sei que, por alguns minutos, ela ouviu que não estava sozinha — o que, nessa idade, muitas vezes é a única coisa que falta.
*Quem parou para falar sobre isso com você, na idade em que você mais precisava? E hoje, quem você poderia parar para ouvir?*