Essa semana escrevi uma sequência de stories sobre a minha trajetória até a Logoterapia. Falar sobre o que vivi não me custa nada — não carrego culpa, nem vitimismo, nem uma ferida em carne viva. Falo com naturalidade, porque já entendi o que aquilo significa pra mim. Mas parei numa frase sobre meus pais, porque a naturalidade que eu tenho com a minha própria história não é a mesma que eles teriam com a exposição dela.
Escrevi, ajustei, decidi contar o suficiente pra ser honesta e guardar o resto. Não porque doía escrever. Porque a história também é deles.
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Agosto trouxe uma leitura densa, mas coerente — os livros estão conversando entre si, não competindo por atenção. Estou com *A Arte de Servir a Deus*, de Frei Alonso de Madri, e com *Psicoterapia e Existencialismo*, do Frankl — que, confesso, está entre os melhores dele que já li, sem contar *Em Busca de Sentido* e os livros mais pessoais, que são outra categoria. Comecei também *Adam’s Return*, do Richard Rohr — em inglês, vou lendo aos poucos, ainda em pedaços. Mas mesmo em pedaços, já trouxe clareza: ele fala sobre a poda neural que acontece entre os catorze e os dezessete anos, e isso bate exatamente com a época em que vivi a separação dos meus pais. Não é uma explicação que gera culpa ou vitimismo. É compreensão. E compreensão, pra mim, é leveza — não peso.
Ao lado desses três, *Memórias do Subsolo* e *Mulherzinhas* — clássicos que também servem à minha vida e à minha profissão, não só à leitura por leitura. Nenhum desses livros está sozinho na estante da minha cabeça esse mês. Um conversa com o outro.
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Escrever aquela sequência não doeu. Mas escolher o que proteger foi um exercício real — cada frase cortada era uma decisão sobre o que essa história significa hoje, não sobre o que ela foi.
O Mapa do Amadurecimento nomeia isso melhor do que eu conseguiria sem ele: não é a repetição do fato que muda alguma coisa, é o que você decide fazer com ele cada vez que volta a contá-lo. Não relembrei a separação dos meus pais essa semana. Decidi, de novo, o que ela significa pra mim agora, aos quarenta e quatro anos, escrevendo pra gente que nunca vou conhecer pessoalmente. Isso não é o mesmo gesto de quando eu tinha vinte anos contando pra uma amiga. Nem o mesmo de quando tinha trinta, numa terapia. É um gesto novo, porque eu sou outra a cada vez que conto — mesmo quando o que conto já está completamente resolvido dentro de mim.
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Tem uma coisa que Frei Alonso escreve sobre receber com alegria o que vem sem que a gente peça — mesmo quando vem de mão alheia, mesmo quando não foi escolha nossa. Fiquei pensando se contar a própria história em pedaços, protegendo o que não é só seu, não é uma versão do mesmo gesto: você não escolhe o que aconteceu, mas escolhe com que mão entrega isso pra quem está do outro lado.
Não sei se cheguei a uma conclusão esse mês. Sei que decidi proteger mais do que expus, e que essa decisão, tomada frase por frase, foi o trabalho de verdade — não o que ficou publicado.
*Você já teve que decidir quanto contar de uma história que não é só sua? O que pesou mais nessa decisão — a sua verdade, ou o cuidado com quem também está nela?*