Quando começo a assistir uma série ou ler um livro, o que mais me interessa não é a trama em si, mas o que revela sobre o ser humano.
Recentemente, tenho assistido Emily in Paris. A série mostra um estilo de vida muito voltado para prazer, movimento, relações rápidas, estética, sucesso profissional. Uma atmosfera leve, colorida, onde os vínculos parecem, muitas vezes, líquidos: intensos por um momento, substituíveis no seguinte.
Ao mesmo tempo, estou lendo o livro de Irvin e Marilyn Yalom. Marilyn, uma mulher com valores familiares fortes, feminista, apaixonada pela cultura francesa, que aos 87 anos toma uma decisão profunda sobre como queria viver e morrer.
Esses dois universos – a ficção de Emily em Paris e a história real de Marilyn – são, de muitas formas, muito diferentes de como eu escolho viver. Mas não é aí que está a questão central para mim.
Não se trata de concordar ou discordar das escolhas dessas pessoas.
O que me interessa é outra coisa:
O que cada uma delas está buscando?
Onde, para elas, as coisas fazem sentido?
Estilo de vida não é diagnóstico
Vivemos em uma época em que o modo de viver do outro é facilmente transformado em rótulo: fútil, exagerado, conservador, radical, incoerente. Em poucos segundos, a partir de um recorte, decidimos quem a pessoa é.
Quando digo que minha forma de ver a vida é diferente daquilo que vejo na série ou até em algumas escolhas que leio nas biografias, não estou dizendo que a minha forma é superior. Estou apenas reconhecendo que partimos de referências distintas.
O problema começa quando confundimos diferença com patologia.
Quando tratamos o estilo de vida do outro como algo que precisaria ser “curado”.
É exatamente aqui que Viktor Frankl se torna, para mim, um ponto de virada.
“O que é incurável?” – o olhar de Viktor Frankl
Em um de seus livros, Viktor Frankl se pergunta: “O que é incurável?”.
E sua preocupação não é com o estilo de vida das pessoas, mas com algo muito mais profundo: o modo como olhamos para o sofrimento, para a doença, para os limites da existência.
Frankl convida a ver o ser humano para além do diagnóstico.
Para além daquilo que, num primeiro momento, parece definí-lo por completo.
A questão não é:
“Como faço essa pessoa viver do jeito certo, como eu acho que ela deveria viver?”
Mas sim:
“Que possibilidades de sentido ainda existem aqui, mesmo quando há dor, confusão ou limite?”
Esse deslocamento é fundamental. Ele tira o foco de “consertar o outro” e nos leva para uma postura de encontro: tentar compreender o que aquela pessoa está tentando sustentar, compensar, evitar, construir, através das escolhas que faz.
Uma clínica psiquiátrica aos 20 anos
Muito antes de me tornar terapeuta, eu já me inquietava com isso.
Eu devia ter uns 20 anos quando fui visitar, com uma amiga, o irmão dela internado em uma clínica psiquiátrica.
Eu só conseguia pensar:
“Quem ele é além disso?”
Quem ele foi antes de chegar ali?
Que medos, sonhos e vínculos existiam para além daquele estado em que eu o via?
O que ainda seria possível para ele, mesmo naquele contexto?
Eu ainda não tinha a linguagem da Logoterapia, nem conhecia a obra de Frankl. Mas, de algum modo, o movimento interno já era o mesmo: recusar-me a reduzir alguém ao seu pior momento ou ao seu rótulo mais visível.
Entre Paris, Marilyn e a clínica
Hoje, como terapeuta, quando vejo uma série como Emily in Paris ou leio sobre a vida de Marilyn Yalom, não me coloco num lugar de juiz moral das escolhas delas.
Eu reconheço que muitas coisas ali são diferentes do que eu escolheria para mim.
Mas isso não me impede – ao contrário, me convida – a fazer outras perguntas:
- O que essa pessoa está tentando sustentar com esse estilo de vida?
- O que ela está tentando proteger?
- Que forma de liberdade, pertencimento, amor ou sentido ela está buscando?
- Quais dores ela está tentando anestesiar ou esquecer?
Às vezes, o que do lado de fora parece apenas “diversão” ou “prazer” pode estar ligado a um medo profundo da solidão, do abandono ou da sensação de vazio.
Às vezes, uma decisão radical no final da vida nasce de uma história inteira de autonomia, coerência interna e desejo de não ser reduzida à própria doença.
Nada disso cabe em julgamentos apressados.
Meu ponto de partida nos atendimentos
Na prática, meu ponto de partida não é a concordância com o estilo de vida da pessoa, nem a tentativa de enquadrá-lo em um ideal de “vida correta”.
O ponto de partida é sempre este:
antes de qualquer definição, existe uma pessoa.
Uma pessoa com história, vínculos, culpa, esperança, contradições.
Uma pessoa que, muitas vezes, está fazendo o melhor que consegue com os recursos emocionais, internos e externos que tem naquele momento.
Olhar para além da doença, além do comportamento, além do rótulo, não significa romantizar o sofrimento ou validar tudo sem discernimento. Significa reconhecer que, mesmo quando discordo de escolhas específicas, continua havendo ali um alguém – e é com esse alguém que eu quero me encontrar.
Entre as luzes de Paris, as páginas de um livro e a lembrança de uma clínica psiquiátrica, permanece a mesma pergunta que guia meu trabalho e minha forma de ver o mundo:
O que ainda é possível aqui?
Onde, apesar de tudo, ainda pode existir sentido?